Minha primeira vez em Galápagos foi em 2010, durante o verão. Foi uma viagem emocionante, mas saí de lá com sensação de missão incompleta, pois ainda tinha muito a explorar. Ao singrar o mar de volta a San Cristoban, com as ilhas Darwin e Wolf ficando para trás com toda a áurea de mistério e fascinação, me vem na memória imagens de encontros com criaturas fascinantes e mergulhos fantásticos. 

Desde então, retornar ao arquipélago passou a fazer parte dos meus planos, e o desejo veio a se concretizar em meados de abril, quando surgiu o convite para conhecer um novo barco que estava operando na região, o Humboldt Explorer. A data determinada para a viagem foi final de julho, melhor época para visitar as ilhas, por causa da temporada dos tubarões-baleia. 

Pouco antes da viagem, fiquei sabendo que passaria a minha semana na companhia de velhos amigos de mergulho, uma grata surpresa. Também estava em meus planos acompanhar um pouco do trabalho de tagueamento de tubarões-baleia (Rhincodon typus), que está sendo feito por uma equipe de pesquisa local do Projeto Tubarão-Baleia de Galápagos. O trabalho visa a marcação de espécimes com tags que transmitem dados via satélite, com a finalidade de conhecer as rotas migratórias e estudar o impacto da atividade pesqueira para esses animais. 

Apesar da água quente, condição não muito propícia para avistamentos na região de Galápagos, durante dois dias tivemos nove encontros com os tubarões-baleia. Os pesquisadores conseguiram marcar 14 animais, entre 6 e 18 de julho. Foram 13 fêmeas e um macho juvenil. 

Segundo Fernando Ortiz, coordenador do projeto, este número superou as expectativas e novas operações já estão sendo programadas, pois será preciso muito estudo para que se possa traçar um perfil migratório e de comportamento desse animal do qual sabemos tão pouco. 

Aqueles que já tiveram a oportunidade de mergulhar com esses dóceis gigantes conhecem a emoção de se estar dentro da água com com o maior peixe do mundo e admirar a graça com que nadam. 

O tubarão-baleia é uma das espécies que estão ameaçadas de extinção, pricipalmente pela prática do shark finning, que vem reduzindo a população de tubarões gradativamente ano após ano, e pouco está sendo feito pelas autoridades mundiais. Em Galápagos esses animais encontram proteção e são parte importante da receita com turismo. 

Sem eles não existiriam os milhares de mergulhadores que visitam o arquipélago todos os anos gastando milhares de dólares e fomentando a economia local; um exemplo a ser seguido. 

Riqueza debaixo da água

O ambiente marinho de Galápagos é um dos mais ricos do mundo, onde grandes encontros são a regra. Em um dia de mergulho considerado “ruim”, você encontra tubarões-martelo, leões-marinhos, tubarões-de-galápagos, raias-xita, golfinhos, tartarugas e imensos cardumes de jack fish. Mergulhar neste lugar nos faz perder a referência do que usualmente estamos acostumados a ver. Em Galápagos todas as suas expectativas com relação ao mergulho serão superadas. Você pode visitar o arquipélago uma centenas de vezes e ainda assim a cada visita será surpreendido. 

Um lugar distante, cheio de mistérios e de histórias, onde o naturalista britânico Charles Darwin concebeu a teoria da evolução das espécies. 

Mergulhos

As Ilhas Galápagos integram um ecossistema complexo e único. Nas ilhas Darwin, por exemplo, em dois dias de mergulho, encontramos facilmente mais de dez tubarões-baleia em meio a um turbilhão de vida e interação. É possível sentir o pulso dos oceanos com todo o seu vigor. 

Nosso primeiro mergulho de check-dive foi em Cerro Tegereta, na Isla San Cristobal, bem próximo ao porto. É um mergulho necessário para checagem de equipamentos, lastreamento e funcionamento das câmeras, pois uma vez em alto-mar, não há como trocar ou substituir equipamentos com defeito. Durante o mergulho fomos acompanhados por um curioso filhote de lobo-marinho, que posou incansavelmente para minha câmera. Divertido e brincalhão, parecia mais interessado nos seres “borbulhantes” do que em qualquer outra coisa. 

No segundo dia mergulhamos na ilha de San Bartholome, onde avistamos tubarões-de-galápagos e galhas-branca-de-recife. No dia seguinte, seguimos rumo à Ilha Wolf e, contando com a ajuda da equipe de guias do Humboldt Explorer, fizemos mergulhos fascinantes em meio a cardumes de tubarões-martelo, golfinhos, enormes tartarugas, arraias-xita e cardumes de diversos tipos de peixe. 

A correnteza era muito intensa, exigindo uma verdadeira escalada sub para poder se manter na parede. Fotografar nessas condições é um desafio, mas a natureza e a diversidade de animais tornam o lugar indescritível, e o resultado vale a pena. Além dos pontos tradicionais, exploramos uma nova caverna, um duto aberto com mais de 200 metros de extensão com uma interligação a um segundo duto paralelo. 

A caverna é aberta na superfície, possibilitando a subida a qualquer momento. A área de cave propriamente dita não passa de 25 metros de teto real, mas encontramos uma explosão de vida no interior deste belíssimo lugar, com enormes arraias-marmoradas, tartarugas, lagostas e tubarões, além de um visual fantástico devido à luz que penetrava de sua enorme boca.

Os mergulhos em Darwin, ponto alto para o encontro com os tubarões-baleia, também proporcionam experiências fantásticas com enormes cardumes de tubarões-martelo. Fizemos alguns mergulhos em uma área de areião bem na ponta do Arco de Darwin, onde literalmente ficamos imersos em um cardume de tubarões martelo, que passavam tão próximos que seria possível tocá-los. 

Em meio aos martelos, enormes tubarões de galápagos, com cerca de três metros de comprimento, passavam calmamente interagindo com seus irmãos, como se fizessem parte do cardume. 

Os mergulhos para avistagem de tubarões-baleia são feitos bem em frente ao Arco de Darwin. É preciso descer bem rápido e ficar praticamente colado na parede, prestando muita atenção no azul, onde os baleias passam em comitiva. 

Ao avistar um animal, deixamos a proteção das rochas e nadamos em sua direção. É preciso observar muito bem o consumo de ar e a distância a ser percorrida para voltar ao abrigo das rochas; a vontade de acompanhar os tubarões para o azul é tremenda, mas a segurança é primordial. 

Galápagos em números

O arquipélago de Galápagos está localizado a quase mil quilômetros da costa do Equador, no Oceano Pacífico. É formado por aproximadamente 58 ilhas de origem vulcânica, sendo que apenas quatro destas ilhas são habitadas. 

A população de Galápagos é de aproximadamente 30 mil habitantes e o arquipélago recebe 170 mil turistas por ano. A ilha Isabela (na forma de um cavalo-marinho) tem cinco vulcões, o mais alto com 1 690 metros de altura. O arquipélago apresenta uma biodiversidade elevada, sendo o habitat de muitas espécies endêmicas, como as tartarugas-de-galápagos. As ilhas formam uma reserva de vida selvagem, que desde a visita de Charles Darwin tornaram-se o principal laboratório vivo de biologia do mundo. 

O processo de evolução, o clima, as correntes marinhas e uma carência relativa de inimigos predatórios, principalmente o homem, fizeram deste arquipélago um dos mais raros e importantes lugares de mergulho do nosso planeta. As ilhas Galápagos são declaradas Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. O arquipélago possui uma surpreendente diversidade de vida marinha. 

Passeios em terra 

Na Ilha de Baltra, não deixe de visitar a Estação Científica Charles Darwin, na qual você poderá conhecer as famosas tartarugas-de-galápagos, o velho George, a tartaruga mais velha do arquipélago, único espécime remanescente das tartarugas gigantes das ilhas e iguanas marinhas e terrestres, além do berçário de tartarugas. 

O porto de Baltra tem diversos restaurantes e lojas de artesanato que vendem lembranças e bugigangas. Baltra ainda é a sede do escritório da Sea Shepherd em Galápagos, onde a ONG desenvolve trabalhos de monitoramento, pesquisa e conscientização da população em relação à importância da preservação dos oceanos.

Dicas 

  • Mergulhadores devem estar preparados para enfrentar correntes fortes. É obrigatório o uso de dive alert e sinalizadores de superfície (salsichões) para o caso de alguém se perder do grupo. 
  • Ter um bom condicionamento físico, ser um mergulhador experiente e com certificação mínima de avançado são requisitos para evitar acidentes e mergulhar com segurança em Galápagos. 
  • A moeda oficial de Galápagos é o dólar americano. 
  • A melhor época para uma visita é entre os meses de junho e novembro. 
  • A vacina contra a febre amarela é obrigatória e deve ser tomada dez dias antes do embarque. 
  • Para entrar no arquipélago, o turista tem de pagar uma taxa de preservação da natureza, que é mais barata para cidadãos do Mercosul. 

A maneira mais fácil de chegar em Galápagos é voar até Quito, capital do Equador, e pegar um voo para as ilhas de Baltra ou San Cristóban, em Galápagos. 

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