Os segredos do triângulo das Bermudas | Texto e fotos: Kadu Pinheiro

Tivemos a oportunidade de conhecer mais essa ilha do Caribe a convite da operadora de turismo especializada em mergulho, Azul Profundo, em conjunto com o Governo das Bahamas e a Copa Airlines, em uma FAM trip organizada para donos de escolas de mergulho e imprensa especializada, a fim de desbravar e saber mais sobre os mergulhos, hospedagem e atividades que a ilha oferece para o mercado de mergulho no Brasil.

O acesso a ilha pode ser feito de duas maneiras para o mercado brasileiro: diretamente de Miami, em vôo direto, ou via um ferryboat que parte de Fort Lauderdale, e vai direto à Bimini. A outra opção é via Panama, Nassau e depois em vôo doméstico de 15 min de Nassau à Bimini, ambas as opções atendidas pela Copa Air Lines.

A ilha de Bimini faz parte das Bahamas e está localizada a apenas 80 quilômetros de Miami, formada por três grandes ilhas: North, South e East Bimini, com praias paradisíacas, muita história e recursos naturais, Bimini acaba sendo um destino muito popular entre os americanos, e agora queremos apresentar essa jóia do Caribe ao mercado Brasileiro.

Mas não é apenas a proximidade de Miami e as lindas praias que tornaram essa ilha tão atraente. O mergulho aqui é fantástico, assim como em outras ilhas das Bahamas, o ponto alto são os tubarões, que podem ser vistos o ano inteiro, diferentes espécies em diferentes épocas, sendo o mais famoso o mergulho com tubarões Martelo Gigantes (Sphyrna mokarran) realizados entre os meses de novembro e março, tubarões de recife, limão, pontas negras, cabeça chata e tigres podem ser avistados o ano todo.

O Grande Martelo, também conhecido por aqui como tubarão-panã, pode atingir 6m de comprimento e pesar mais de 450kg. Vive em águas quentes, pouco profundas, pelas plataformas continentais de quase toda a zona tropical do planeta. Ele distingue-se de outros tubarões-martelo pela forma do seu “martelo” – chamado “cefalofólio” –, que é mais largo e com a frente quase reta, e também pela altura descomunal de sua primeira nadadeira dorsal (a “barbatana”), curvada como uma foice. Pesquisas sugerem que a função do cefalofólio é localizar e imobilizar suas presas, principalmente raias-prego, que ele devora com o ferrão e tudo, e até tubarões menores.

Já considerado em risco de extinção, o Grande Martelo é um dos tubarões mais ameaçados pela pesca, seja proposital por pesqueiros ilegais ou incidental – ele é comumente preso por acidente em redes industriais e mesmo artesanais. Suas grandes barbatanas são muito valiosas no mercado, para cosméticos e suplementos, assim como seu fígado. Aqui no Brasil, mesmo com a pesca proibida, até a carne é comercializada – e um tubarão deste tamanho tem muita carne, que chega à peixaria com o nome de “cação”. Adicionando o baixo potencial reprodutivo – ninhadas de até 55 filhotes a cada dois anos – à equação, fica evidente que suas populações estão diminuindo drasticamente pelo mundo todo.

Grande tubarão-martelo

  • nome científico: Sphyrna mokarran
  • habitat: áreas costeiras e plataformas continentais da zona tropical do planeta
  • estado de conservação: risco de extinção
  • tamanho: até 6m e 450kg

Mergulhos inesquecíveis

Um do melhores lugares do mundo para se mergulhar com o Grande Martelo com certeza é Bimini – e ouso dizer que um dos únicos com 99% de chances de interação na época certa do ano. Esta operação foi criada por Neal Watson, e agora é conduzida com maestria por seu filho e equipe, no Bimini Scuba Center.

Após uma navegação curta, algo em torno de 10 minutos a partir da marina (que ficava convenientemente dentro do hotel em que nos hospedamos), chegamos ao ponto do shark dive: um canal abrigado, protegido de qualquer intempérie. 

Assim que o barco ancorou, os guias começaram a preparar a caixa de metal, cheia de furos, com o engodo – uma mistura de pedaços de peixes mortos, para atrair e alimentar os tubarões. Queremos que os convidados de honra cheguem logo para o almoço!

Quando o primeiro apareceu, nos seduzindo a entrar na água, pulamos do barco e descemos até cerca de 10m de profundidade para assistir, da primeira fila, o desfile dos Sphyrna mokarran.

Não posso deixar de mencionar a quantidade incrível de comportados – às vezes nem tanto – tubarões-lixa, que ficavam no meio do frenesi alimentar, esperando algum resto de isca dar mole. Dezenas deles, deitadinhos, se esgueirando para perto da caixa como cachorros malandros – os guias tentam impedir sua aproximação, para não atrapalhar as grandes estrelas da festa.

Tubarão-lixa:

  • nome científico: Ginglymostoma cirratum
  • habitat: fundo arenoso e recifes de águas litorâneas, mornas e calmas, no Atlântico e no Pacífico oriental
  • estado de conservação: quase ameaçada
  • tamanho: até 4m e 300kg

Como é o mergulho:

Cada grupo é formado por no máximo 12 mergulhadores, acompanhados por no mínimo 3 guias, 1 feeders e 2 safety divers, que cuidam para que os tubarões não se aproximem por trás das pessoas.

Lá embaixo, é montada uma fileira com bastões de PVC fincados na areia, que servem para demarcar a posição de cada mergulhador e também para protegê-lo em caso de uma investida mais calorosa de algum tubarão.

O cenário ideal para atrair os bichões é que haja corrente: os mergulhadores ficam posicionados contra ela, de modo que a abordagem dos tubarões seja sempre realizada pela frente, já que o engodo se espalha na direção contrária.

Uma vez que o show começa, os mergulhadores chegam a ficar na água até 3 horas seguidas, com intervalo apenas para trocar de cilindro. Muita atenção na hora de subir e retornar: outros tubarões, como o cabeça-chata, costumam ficar embaixo do barco esperando uma boquinha.

Ponto alto dos mergulhos foi a visita de uma grande tigresa, aparentemente grávida, de quase 4 metros. Presença rara nas águas de Bimini, ela roubou a cena quase todos os dias, interagindo intensamente entre os martelos durante a alimentação.

O grupo ficou maravilhado, teve até comentário: “Quem precisa ir para Tiger Beach (outro ponto das Bahamas, famoso por seus mergulhos com tubarões-tigre) se agora os tigres estão por aqui? Apelidei nossa menina de “Docinho”, devido ao seu comportamento e à sua delicadeza durante os mergulhos. 

E ela não foi a única na área, outro tubarão-tigre, um macho maior, também circulou pelas bandas dos martelos, mas se manteve distante e mais desconfiado”.

Tubarão-tigre

  • nome científico: Galeocerdo cuvier
  • habitat: águas tropicais e temperadas ao redor do mundo, exceto no Mediterrâneo
  • estado de conservação: quase ameaçada
  • tamanho: até 6m e 700kg

Nos últimos mergulhos, tivemos a presença constante de muitos tubarões-cabeça-chata, também chamados de tubarão-touro, que circulavam ao redor da “arena”, deixando a galera meio tensa. O temido “bull shark” é um dos principais responsáveis por ataques a humanos (atrás apenas do tubarão-branco e do tigre), inclusive aqueles na praia de Boa Viagem, no Recife.

Tubarão-cabeça-chata

  • nome científico: Carcharhinus leucas
  • habitat: áreas costeiras e de mangue da zona tropical de todo o planeta; são capazes de viver em água doce, como no Rio Mississippi, Lago Nicarágua e Rio Amazonas
  • estado de conservação: quase ameaçada
  • tamanho: até 3,5m e 130kg

Outro destaque da viagem foi o mergulho com os golfinhos-pintados-do-atlântico, espécie rara e muito dócil, parecida com seus irmãos nariz-de-garrafa, que também apareceram. O mergulho acontece à tarde, próximo ao canal, quando os animais retornam de suas caçadas em mar aberto. Há um grande grupo residente em um banco de areia ao norte do arquipélago e diversos outros que aparecem por lá durante todo o ano.

A visibilidade nesse ponto é estonteante, de um azul inacreditável, com um fundo de areia muito branco, a pouco mais de 6m de profundidade. Para atrair os golfinhos, não podemos nadar em direção a eles. É só tomar fôlego e mergulhar para o fundo: eles virão em sua direção e passarão a interagir com você, brincando e se mostrando por um bom tempo. Não tem como não se apaixonar por eles, encantados pelas brincadeiras e pela inteligência absurda.

Além dos espetáculos dos tubarões e golfinhos, também são realizados mergulhos de recife, típicos das Bahamas, com muita vida, belas formações coralíneas e diversas espécies de tubarões visitando as paredes. A Corrente do Golfo muitas tartarugas e cardumes, como de atuns, xaréus e cavalas. São quase 30 pontos, incluindo naufrágios e até cavernas marinhas a serem exploradas. 

Onde ficar :

Bimini Big Game Club Resort & Marina

Que fica em Alice Town, na ilha Norte, a 5 minutos a pé da Bimini Blue Water Marina e a 10 minutos do centro. Construído em 1947 e renovado em 2010, ele tem piscina, wi-fi, ar condicionado nos quartos e restaurante; é uma confortável opção para quem deseja fazer os mergulhos com os Grandes Martelos, pois a operadora Bimini Scuba Center fica dentro das instalações do hotel. Outra ótima pedida de hospedagem é o Hilton Resort, mais distante e mais caro, mas que vale ao menos uma visita para conhecer seus excelentes restaurantes.

Hilton Resorts Bimini

Um dos melhores e mais luxuosos hotéis da ilha, oferecendo uma piscina de borda infinita com vista deslumbrante da Marina, o Hilton at Resorts World Bimini está localizado na praia, em North Bimini. O WiFi gratuito está disponível em todas as áreas.

As suítes modernas e quartos deluxe, com vista da marina e do resort, também dispõem de pisos de madeira de lei, e pias com balcão de mármore. Alguns possuem varanda térrea privativa.

Café da manhã, almoço e jantar são servidos no restaurante de culinária informal Hemingway

Seguimos mergulhando, agora com a Bimini Undersea, que é a operadora de mergulho oficial do Hotel, com barco privativo, só para nosso grupo, conhecemos um belo recife de corais com muita vida e muito coloridos, mostrando que Bimini não é só tubarões

O naufrágio do Bimini Berge a 30 metros de profundidade e recheado de vida, um local para avançados pois apresenta muita correnteza e é mais profundo.

O segundo mergulho foi um shark dive com tubarões caribenhos de recife a 4 metros de profundidade de quase 2 horas de fundo, onde uma caixa com iscas foi baixada, atraindo dezenas de tubarões para debaixo do barco, e que ali permaneceram calmamente para o deleite de todos.

Tubarão Cinzento de Recife ou Tubarão-bico-fino

  • Nome científico: Carcharhinus Perezii
  • Habitat: Toda a região do Caribe e Fernando de Noronha
  • Quando adultos podem alcançar até 3 metros de comprimento, sendo uma das espécies de tubarão mais comuns nas Bahamas

Foi um mergulho especial, bem diferente do que estou acostumado a ver em Shark Dive, os animais permaneceram calmos e passavam bem perto dos mergulhadores, mas sem comportamento agressivo, apenas patrulhavam a área em torno do barco e  me permitiram fazer excelentes fotos bem naturais de nossos amigos dentuços.

Além do mergulho outra atividade bastante famosa por aqui é a pesca esportiva.

A maioria dos habitantes das ilhas, cerca de 1.600, mora em Bailey Town, em North Bimini e o principal centro turístico fica em Alice Town, também na Ilha Norte de Bimini. Hotéis, restaurantes e operadoras de pesca também se concentram nesta ilha.

Lendas locais relatam que esta pequena comunidade de ilhas já fez parte do sistema viário da cidade perdida de Atlantis, e um dos pontos de mergulho mais famosos da ilha é justamente uma estrada de blocos de pedra submersa, que especialistas estudam e tentam desvendar sua origem.

Seja para praticar a pesca esportiva ou simplesmente relaxar, Bimini é o lugar perfeito para fugir da agitação das grandes cidades, seguindo sempre o lema dos nativos da ilha: “Sem correria, sem pressão e sem ataques cardíacos”.

O Shark Lab

Depois dos mergulhos fomos conhecer o berçário de tubarões e o centro de pesquisas do projeto Shark Lab em companhia do lendário Neal Watson, que nos apresentou aos pesquisadores que mantém o local e realizam pesquisas de campo, no manguezal.

Ao falar sobre a importância do manguezal para a preservação das espécies de tubarões que se reproduzem na ilha, a pesquisadora nos explica que os manguezais são importantes porque fornecem alimento e abrigo para os filhotes de tubarões, as raízes do mangue servem de proteção, para os pequenos tubas e são parte importante do processo de desenvolvimento dos mesmos.

A equipe do Shark Lab marca os filhotes, que passam a ser monitorados até alcançarem a idade adulta, saindo do manguezal para o mar aberto. Os biólogos também marcam e monitoram os adultos para estudos migratórios e comportamentais.

A bióloga explica que principalmente os grandes martelos estão ameaçados em todo o mundo e a população deles está diminuindo cada vez mais. E a forma de defender os tubarões é estudar o comportamento deles, saber para onde eles se deslocam e como eles se alimentam, pois esses animais são importantes para o equilíbrio do ecossistema marinho de todo o mundo.

Naufrágio do Sapona

No último dia fizemos um snorkeling a convite da Undersea Bimini, no naufrágio do cargueiro SS Sapona, que lá encalhou em 1926 depois de um furacão. O barco é enorme, e a maior parte está fora d’água, o mergulho é bem raso, cerca de 5 metros de profundidade no máximo. A curiosidade é que o barco foi construído em concreto, pois o aço estava em falta durante a Primeira Guerra Mundial.

A Primeira Guerra Mundial acabou antes do barco terminar de ser construído e ele acabou sendo vendido como sucata. Durante algum tempo foi usado para armazenar óleo combustível.

Em 1924 foi vendido novamente, quando foi transportado e ancorado ao largo de Bimini, Bahamas. Durante a época da Lei Seca americana, foi usado como armazém de bebidas, fugindo da legislação por estar em território estrangeiro. A intenção do novo dono era reformá-lo para servir de casa noturna e cassino, mas o furacão de 1926 acabou com seus planos.

Durante a Segunda Guerra Mundial foi usado como alvo pela Força Aérea Americana e pelos Fuzileiros Navais. Depois de uma missão de treinamento de bombardeio no SS Sapona, a famosa missão “Flight 19” simplesmente desapareceu e 14 aviões nunca mais foram vistos. É um dos mais famosos casos de desaparecimento no “Triângulo das Bermudas”.

O Triângulo

O Triângulo das Bermudas é um dos mitos modernos mais populares, e é tido como um dos mais insondáveis mistérios do nosso planeta ou, pelo menos, assim nos querem fazer crer, havendo também quem o ligue e aos seus fenômenos com o mito da Atlântida, o continente perdido.

A região do Triângulo demarcada no mapa, entre Fort Lauderdale, Porto Rico e Bermuda (Bimini fica dentro dessa área), onde ocorreu a maior incidência de desaparecimentos de pessoas, barcos, navios e aviões com seus tripulantes e cargas.

Uma das possíveis explicações para estes fenômenos de desaparecimento são os distúrbios no campo eletromagnético da Terra que esta região sofreria.

A ilha é tudo isso e muito mais, consulte seu agente de viagens ou sua escola de mergulho e planeja uma visitinha para a ilha do mistério, provavelmente você vai querer ficar perdido por aqui e não voltar mais para o Brasil !!

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