Pequenas ilhas, grandes mergulhos | Texto e fotos: Kadu Pinheiro

Conhecer as Ilhas Gili foi uma das mais gratas surpresas de minha viagem à Indonésia. Eu nunca havia ouvido falar das três ilhotas: Gili Trawangan, Gili Meno e Gili Air, que juntas somam apenas 15 km2. Um paraíso escondido entre Bali e Lombok.

Gili T é a maior e mais badalada, com mais opções de hospedagem e diversão; Gili Meno é a mais tranquila e rústica, menos visitada pelos turistas; Gili Air é menor e mais próxima à costa de Lombok, combinando sossego e uma ótima infraestrutura de mergulho.

Em nenhuma das três há carros, prédios com andares ou hotéis de rede. Todo o transporte é feito a pé, de bicicleta ou em charretes, por caminhos de pedras ou terra. A maioria das pousadas não é abastecida com água doce – acostume-se a tomar banho salgado, não é tão ruim.

Quase tudo é “pé na areia” nas Gilis, em praias mais bonitas – e vazias – que as de Bali. É possível dar a volta a pé um qualquer uma delas em pouco mais de duas horas – ou uma de bicicleta. De um lado das ilhas, impressionantes vistas do vulcão Agung e coloridíssimos pores-do-sol; do outro, o ofuscante nascer o sol e a paisagem do vulcão Rinjani de Lombok. Um espetáculo diferente a cada dia.

Durante a feira Adex, em Singapura, fui convidado pela 7Seas – uma das melhores operadoras de mergulho da região, parceira da Dive Trek, com quem mergulhei em Bali na primeira parte da viagem – a conhecer o trabalho deles em Gili Air. Após cerca de 2 horas em um barco a partir de Bali, cheguei à pequena e charmosa ilha, onde me hospedei em um típico hotel com bangalôs, super aconchegante.

Após almoçar em um restaurante de praia, acelerei o passo para um mergulho de boas vindas no fim da tarde. Um gostinho do que me aguardava os próximos dias: pequenas criaturas coloridas, como nudibrânquios, minúsculos frog fish e mantis shrimp, até raias e tubarões.

A vida na Indonésia – abaixo e acima d’água, dos peixes aos pássaros – é um misto de espécies asiáticas e australasiáticas, nitidamente separadas pela chamada Linha de Wallace, que passa justamente no Estreito de Lombok, entre Bali e Lombok. Bem nessa área de transição ficam as Ilhas Gili, onde, portanto, é possível ter contato com uma vida marinha muito extensa.

Tartarugas marinhas, principalmente as de-pente, são abundantes pelas formações vulcânicas e coralíneas que circundam as três ilhas, em águas com temperatura por volta de 28ºC o ano todo. Um destino perfeito para mergulhadores iniciantes, mas que guarda segredos para os mais experientes. 

São cerca de 25 pontos de mergulho na região das Gilis, com grande variedade de topografia: paredões, passagens, pináculos, cânions e até naufrágios. Corais duros e moles colorem o fundo como um jardim. Eles abrigam tubarões galha-preta e galha-branca, muitas tartarugas-de-pente, peixe-leão, peixe-escorpião, polvos, moreias, cobras marinhas, diferentes tipos de raias (chitas, pintadas e, entre dezembro e março, mantas), anêmonas cheias de peixes-palhaço, cardumes de peixe papagaio a cada lua cheia e, raramente, até tubarão-baleia.

O Recife de Haan, em Gili Air, é considerado um dos melhores pontos, onde é possível ver criaturas raras, como peixe-escorpião-cor-de-rosa, cavalos-marinhos-pigmeus, peixe-cachimbo fantasma, polvo-de-anéis-azuis, frogfish coloridos, diferentes nudibrânquios e muito mais.

O noturno na costa de Lombok também é imperdível: um visual de tirar o fôlego durante a navegação no pôr-do-sol e um mergulho fácil, gostoso, perfeito para macro fotografia. É nesta região que ficam os paredões de centenas de metros de profundidade, parque de diversões dos mergulhadores técnicos.

O Imperdível mergulho para ver o famoso peixe mandarim, que pode ser feito no recife em frente ao píer da operadora de mergulho. Há um horário correto e um ritual de localização e apreciação, incluindo lanternas com filtros vermelhos obrigatórios. Confesso que foi um dos peixes mais difíceis que fotografei na vida! Tímido e cheio de reservas, manter o foco da câmera em cima desse belo carinha por mais de alguns segundos é tarefa impossível até para os mais experientes fotógrafos.

Sinta-se privilegiado se conseguir registrá-lo, ainda mais se acertar a hora do performático ritual de acasalamento: ao entardecer, o macho levanta sua nadadeira dorsal e nada em volta da fêmea até agarrar a nadadeira peitoral dela com a boca; os dois então nadam em direção à superfície, conectados, expelindo o esperma e os óvulos que se unem para formar os ovos.

No último dia, tirei a parte da manhã para fazer alguns voos de drone sobre as ilhas e registrar em fotos e vídeos um pouco da beleza desse lugar fora d’agua. Passei apenas três dias em Gili, pouco tempo que deixa um gostinho de quero mais. Espero retornar em breve para desfrutar melhor desse refúgio. Se tiver a oportunidade, reserve uma semana para o pequeno arquipélago.

Como chegar?

Partindo de Bali, há três portos de onde partem os barcos para as Ilhas Gili: Serangan (ao Sul, mais próximo ao aeroporto, cerca de 2 horas de navegação), Padang Bai (central, mais movimentado e com opções de horário, cerca de 1h15 de navegação), e Amed (na parte Oeste e mais tranquila, onde estávamos, cerca de 1h de navegação). Também é possível embarcar no porto na ilha vizinha Nusa Penida, se você estiver por lá. 

Os mesmos barcos param nas 3 Gilis e depois atracam em Lombok – onde também há um aeroporto para vôos internos, que pode ser útil dependendo do seu itinerário. Seja de onde sair, informe-se no dia anterior (no hotel ou nos quiosques de rua) sobre os horários das diversas empresas que operam a rota, que podem mudar devido às condições de mar. Sempre escolha a opção “fast boat”, se disponível – há barcos mais lentos e baratos que demoram até 4 horas para fazer a travessia.

Mergulho

Para manter a qualidade das operações de mergulho e evitar uma competição desleal – garantindo assim a manutenção das embarcações e dos equipamentos e salários justos para os instrutores, guias e staff –, foi criada a GIDA (Gili Islands Divers Association). 

Todos os dive centers que operam nas três ilhas obedecem a um acordo de política de preços, que apenas exclui a comercialização de equipamentos: as saídas recreativas para qualquer ponto custam o mesmo em todo lugar, seja com quem você mergulhar; assim como o valor de todos os cursos é tabelado, seja qual for a certificadora. Eles também concordaram em embutir uma “taxa de recife” em toda saída de mergulho ou snorkel, repassada para a Gili Eco Trust, que realiza limpeza de praias, reciclagem e ações de conservação dos ecossistemas marinhos.

Mergulhos noturnos ou técnicos são organizados de acordo com as solicitações. Há ampla oferta de equipamentos para alugar, então se você não possui ou prefere não carregar o seu, fique tranquilo.

Ainda assim, o mergulho é muito barato: cerca de $35. A maioria das operadoras oferece três saídas recreativas ao dia, de manhãzinha, no final da manhã e à tarde – todas a bordo de barcos de madeira tradicionais da Indonésia.

Você sabia? 

que Gili significa Ilha na indonésia ?

as 3 ilhas juntas somam 15km2

os meios de transporte oficiais são a charrete e a bicicleta

diferente de Bali, onde a religião predominante é o hindu, nas ilhas a maioria dos habitantes é mulçumana; há uma mesquista em Gili Trawangan

que a boca do frogfish pode se expandir para 12 vezes o seu tamanho.

não há fontes de água nas Gilis, a não ser o próprio mar

o estreito de Lombok separa as espécies asiáticas e australasiáticas da região

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