Jamaica Experience | Texto e Fotos: Kadu Pinheiro

Conhecer a Jamaica foi um presente na minha vida, uma dessas viagens que faz você parar e repensar tudo que estava fazendo, um povo especial, uma cultura baseada no amor, um país rico e pobre, cheio de natureza intocada, florestas e um mar azul e rico, cheio de vida, mas habitado por um povo sofrido e muitas vezes discriminado, mas ainda sim capaz de ensinar e compartilhar o amor, um povo que respira música que mora em uma nação que é o berço de um dos ritmos mais contagiantes do mundo: O Reggae, terra de Bob Marley um icone, um semi-deus adorado e reverenciado pelos Rastafaris, para mim a Jamaica foi uma experiência espiritual, gastronômica e de superação.

A trip começou com um convite da minha amiga Karina Oliani, médica, atleta, apresentadora de TV e mergulhadora dentre outras tantas coisas, Karina tinha um sonho de fazer um ensaio fotográfico submarino, muitas idéias, muitos planos e muitas frustrações, com um rabo de sereia que ficou preso na nossa alfândega, infelizmente, nosso país ainda é um antro de corrupção onde aproveitadores e pessoas de mal caráter ainda ditam as regras e extorquem o cidadão de bem ao seu bel-prazer, perdoem-me o pequeno desvio na matéria, mas não podia deixar passar o episódio em branco, mesmo com todas as dificuldades e com a ausência do rabo de sereia fomos lá e fizemos o nosso melhor. 

Na primeira parte da trip fomos parar em Negril, logo ao chegarmos no Aeroporto de Montego Bay, o choque cultural foi enorme, a vibração o clima, tudo em outra velocidade….

A Ashlyn, da agência Touch The Road, responsável pela nossa estadia e nossa guia pelos próximos dias já estava no aeroporto nos esperando, após uma breve apresentação seguimos para Negril, Ariane Carvalho nossa produtora executiva e responsável pelo projeto Jamaica Experience aqui do Brasil, Karina e eu, após algumas horas de estrada chegamos em Negril, e na primeira grande surpresa da viagem, conhecemos nosso hotel, um lugarzinho muito especial chamado Jackie’s on the Reef, um spa que fica a 11 km do centro de Negril. Criado por uma nova-iorquina, que trocou a indústria da moda por este paraíso, o lugar é totalmente natural, dos tratamentos oferecidos, massagens, sessões de yoga à comida, preparada no fogão a lenha e totalmente natural e que foi o início da maior transformação física pela qual passei na viagem, tinha acabado de sair e de me recuperar de um sério problema de saúde e estava na minha jornada de perder peso e ganhar uma vida mais saudável, a Karina logo se prontificou a me ajudar a entrar em forma durante a trip, e começamos pela minha alimentação, Para que a integração à natureza seja total, lá não há TVs, computadores e telefones celulares são proibidos, um verdadeiro retiro espiritual, Jack a dona do lugar, que além de tudo é mestra de Yoga, e veio nos receber vestindo um sarong, com uma expressão de paz e doçura que deixaria qualquer mãe com inveja, o lugar faz com que você repense suas prioridades, dormir cedo, sem computador, sem celular, olhando a lua e ouvindo o mar.

Acordamos cedo e logo fomos nadar nos recifes em frente ao hotel, o mar estava batido, com uma cor incrível, mas ondas grandes assolavam as pedras e dificultavam nossa entrada e saída da água, estávamos anciosos para começar a fotografar e decidimos tentar um reconhecimento ali mesmo com o mar bravo, que apesar de tudo estava lindo, câmera preparada, prestamos atenção nos intervalos de ondas e achamos o melhor momento para entrar na água, uma vez na água em segurança percebi que tinha feito uma tremenda burrada, não tirei a tampinha da lente… impossível de fotografar…bravo comigo mesmo resolvo sair da água e consertar a presepada… sai sem grandes problemas apesar das ondas e com a ajuda da Karina para me avisar o melhor momento de me agarrar as pedras, já com tudo arrumado e nervoso pela perda de tempo, me precipito ao entrar na água de novo e pago um preço alto, uma onda me joga sob o recife e para proteger a câmera uso meu antebraço que é fatiado em um recife de coral, ainda insisto em ficar e fotografar mesmo com o braço sangrando muito, a Karina olha o corte e insiste em sair da água, coisa que fazemos quase uma hora depois, as fotos não fluíram, acho que a energia ainda estava meio desequilibrada. 

Após uma limpeza do ferimento a Karina me aplicou folhas de Aloé Vera ou Babosa como chamamos aqui no Brasil, fiquei bem preocupado em ter uma infecção no braço mas ao final do dia percebi que o inchaço havia passado e o braço já dava sinais de cicatrização, santo remédio.

Após explorar a ilha e conhecer o famoso Rick’s Café onde fizemos cliff diving o salto e mergulho a partir de penhascos, claro que não podiamos deixar de experimentar essa aventura, e logo a Karina pulou na água, que poderia eu fazer…não ia deixar essa pobre moça sozinha lá em baixo no meio de tantos outros malucos hehehehe (como se ela precisa-se de uma babá) mas foi uma boa desculpa para deixar a câmera nas mãos da Ariane e me despencar na água também.

Comemos no Corner Bar, desconhecido da maioria dos turistas, o lugar é um típico bar de praia onde, segundo os locais, come-se a melhor comida da Jamaica. E sabe o que foi o prato da viagem? O Conch, um molusco, primo do escargot, que, como ele, também é uma lesma e habita o interior de uma grande e bonita concha, uma delícia além de muito saudável e barato.

Nos outros dias fomos mergulhar para finalmente poder conhecer as belezas submarinas da região, fazer algumas fotos “normais” para a matéria e relaxar um pouco, nossa surpresa foi encontrar pontos de mergulho totalmente cobertos por esponjas coloridas e muita vida, cardumes e cardumes de peixinhos coloridos, e um recife realmente saudável, apesar da pesca em excesso que vem se tornando um problema na região o que encontramos foi um mar de cores, bem típico do Caribe mas em maior quantidade que em outras ilhas, as fotos falam melhor que minhas palavras. 

A alegria e a hospitalidade do povo jamaicano, o pôr do sol, em Negril, o sabor pitoresco do ackee, a fruta símbolo da Jamaica, que deve ser apreciada na época certa sob o risco de envenenamento, foram tantos os momentos incríveis, que fomos incapazes de descobrir o que mais nos encantou.

Seguimos em frente para a segunda parte de nossa jornada, malas prontas e após uma doce despedida de Jack, pegamos a estrada rumo a Montego Bay para pegar o quarto membro da equipe, Edu Hyde, um dos maquiadores mais top do Brasil, que veio com a missão de preparar a Karina para um look subaquatico de fazer qualquer sereia chorar de inveja, e ainda aproveitando nossa estadia na Jamaica a marca de roupas femininas Marcia Melo nos contratou para a missão de fotografar seu novo catálogo de Verão, desafio prontamente aceito pela Karina e por mim, dois iniciantes no mundo da moda, mas que com a direção e orientação do Edu e sem falsa modéstia acabamos fazendo um belo trabalho.

Após pegar o Edu no aeroporto seguimos em uma longa viajem de carro que cruzou a ilha em direção a Port Antonio, segundo destino de nossa trip, o lugar onde filmaram boa parte do filme Lagoa Azul, não consigo imaginar o por que….

Chegando, novamente uma grata surpresa, após uma longa jornada e chegando quase ao anoitecer no hotel Mocking Bird Hill, um verdadeiro refugio cheio de classe e charme incrustado nas montanhas, o lugar é o paraíso para casais em lua de mel, um cenário de tirar o fôlego com apartamentos avarandados e vista para o mar, locação perfeita para algumas das fotos que faríamos para o catálogo.

Os 3 dias seguintes seriam intensos, nos alternamos entre várias locações na região para fazer o ensaio do catálogo, confesso que fotografar tubarões é muito mais fácil do que fazer fotos de moda, são tantos os detalhes e foram tantas fotos produzidas até chegarmos nos resultados desejados que ao fim desses dias estávamos beirando a exaustão !!

Terminado nosso trabalho em terra, finalmente caímos na água para fazer nosso ensaio maluco, com o apoio da operadora Lady G Diver, que nos ofereceu os mergulhos e ainda cuidou da segurança da Karina durante os ensaios.

No primeiro mergulho do dia fiz um rápido reconhecimento do local enquanto a Karina e o Edu terminavam a maquiagem especial a prova d’água, achei os pontos onde eu queria trabalhar e planejei o ensaio mentalmente, após um rápido briefing sobre o que e como íamos proceder as fotos e contando com uma mergulhadora de segurança para ajudar a Karina entre as fotos além da Ariane que que foi nosso anjo da guarda durante os mergulhos, mãos a obra e o resultado você pode ver no ensaio publicado no final dessa edição.

Ao fim dos mergulhos ainda fui brindado com um enorme bando de golfinhos que passou ao meu lado durante a parada de segurança fazendo graça e saidno rapidamente do meu campo visual !!

Mergulhos incríveis e um resultado acima do que estávamos esperando, realmente a Jamaica me inspirou a fazer um trabalho fora da curva com a ajuda da Karina !! 

Ficamos imensamente gratos pela ajuda recebida da Lady G Diver

www.LadyGDiver.com

Address: #2 Somers Town Road PO. Box 81 Port Antonio, Portland, Jamaica, West Indies, Telephone: Voice/Fax: +1-876-715-5957 Day or Evening +1-876-995-0246, 289-3023 | e-mail: LadyGDiver@cwjamaica.com

Kingstone

Fim dos trabalhos em Port Antonio, a equipe ia separar-se novamente, Karina e Edu seguiriam para Montego Bay e voariam para Miami para um outro job, eu e Ariane ainda tínhamos a missão de conhecer e registrar as belezas de Kingston, a mágica e incompreendida capital da Jamaica !! 

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

Falando em Trench Town, tivemos a oportunidade única de conhecer esse lugar, de acompanhar uma gravação de uma banda ao vivo, de papear com algumas figuras que ali vivem como Stone Man, que em suas simples e sabias palavras me ensinou o que era o Love Love, o amor único e maior pregado pela cultura Rasta.

Tivemos a oportunidade também de conhecer um dos papas da cultura DUB Gabre Selassie, em uma entrevista única em seu club nas montanhas.

Conhecer a Jamaica também significa se entregar à culinária local, que oferece um tempero diferenciado e muito popular. A gastronomia jamaicana é uma mistura das cozinhas africana e inglesa, predominando o sabor intenso da variedade de temperos utilizados.

Embora a base de sua culinária seja saudável, com uso de peixes, aves, arroz, legumes, frutas e especiarias, a maioria dos pratos é apimentado e o mais popular deles é o “jerk food”, termo que descreve o processo de cozimento da carne de frango, porco ou peixe, que é marinada e posta para cozinhar lentamente em uma espécie de churrasqueira, que dá à carne um sabor muito especial.

Por fim, podemos afirmar que a Jamaica é uma imersão, uma verdadeira experiência de vida, mas apenas para aqueles que se aventuram para fora das portas dos grandes resorts e redes de hotéis, comer em restaurantes típicos com comida rasta, frequentar a musica e o espírito da capital Kingstone, explorar praias desertas e cachoeiras selvagens, viver um pouco do dia a dia Jamaicano, além é claro de explorar as belezas submarinas que o país tem a oferecer.

Posso afirmar com certeza que após essa viagem voltei transformado pela cultura, pelo povo, pela energia e pela comida, além de 8 quilos mais magro, e disposição de mudar muitas coisas na minha vida. 

Esse é um pouquinho do nosso Jamaica Experience, espero que vocês tomem coragem e vão para a Jamaica um dia !!

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