Selvagem e Intocado…

Um Caribe como nos tempos de Colombo

Se descrever um lugar como os Jardines de La Reina é uma tarefa gratificante, é também muito complicada. É um lugar intocado pelo homem, preservado em meio a tanta exploração e degradação dos oceanos. Uma verdadeira jóia, uma pérola no mar do Caribe, situada cerca de 48 milhas ao sul do litoral de Cuba, é uma imensa barreira de recifes que se estende por mais de 360 km. Um conjunto de mais de 600 ilhas e Ilhotes (chamados de cayos) – dividido em 3 grandes grupos. O Labirinto das Doze Léguas é o mais importante e se estende desde o golfo de Guacanayabo até a baia de Casilda, na parte meridional da ilha de Cuba. Os Jardines de La Reina foram descobertos por Cristóvão Colombo em sua segunda visita ao novo mundo e seu nome é uma homenagem à Rainha Isabel de Castilla.

Preservação

A preservação apoiada por medidas de protecionismo do governo Cubano é o segredo desse milagre. Preservação associada à distância da costa, ausência de população local e o ciclo das marés na região que descarrega várias vezes ao dia uma sopa de nutrientes que abastece e garante a base de uma riquíssima cadeia alimentar. Sem a intervenção do homem, não existem detritos de nenhuma natureza – não avistamos nenhum tipo de lixo durante nossos mergulhos.

A preservação é total. A parceria entre um grupo de Italianos e o Governo Cubano é um excelente exemplo de sustentabilidade: o governo cedeu a concessão de exploração da região 12 anos atrás e a partir de então se iniciou uma verdadeira cruzada para criar o parque marinho e medidas que garantissem a proteção da região. A Avalon, empresa Italiana responsável pelas operações no local, ajuda a manter uma base de guardas-parque responsáveis pela fiscalização e manutenção da região fornecendo infra-estrutura e apoio na fiscalização.

No parque, que abrange uma área de aproximadamente 1.400 km², são proibidas a pesca e qualquer atividade de extração que prejudique o eco-sistema sendo permitido apenas a pesca esportiva – com soltura do peixe – e o mergulho. Aliás, a pesca esportiva é o grande chamariz da região e oferece experiências inesquecíveis aos seus aficionados.

Ainda assim, são poucos os privilegiados – este é um destino que limita o acesso de turistas e recebe pouco mais de 300 felizardos por ano – que usufruem um mar com águas turquesas e cristalinas, um verdadeiro espelho d’água envolvendo formações de coral que chegam a ter vários metros de altura! Estão catalogadas aqui mais de 165 espécies de invertebrados marinhos, 60 de esponjas, 77 de corais, 167 espécies de peixes na zona recifal e mais de 58 nas regiões de mangue! A densidade de peixes é mais que o dobro do que encontramos em outras regiões de CUBA, um nível de Biomassa surpreendente mesmo comparado com outras regiões de proteção marinha do mundo.

O grande indicativo de saúde dos recifes e grande atrativo para os mergulhadores – e para mim, em particular – é a enorme quantidade de tubarões de diversas espécies que povoam a região, sempre os primeiros a sucumbir quando há desequilíbrio do eco-sistema.

Em nosso primeiro dia partimos do porto de Jucaro, na província de Camaguey, rumo a nossa base de operações nos próximos dias: o hotel flutuante La Tortuga. Nosso grupo multinacional era composto pelo staff da Avalon, dois ingleses, dois espanhóis, um alemão e dois brasileiros, todos mergulhadores experientes e com um vasto currículo de imersões pelo mundo todo – percebi que seria difícil impressionar a galera!

Apos conversar com os guias Noel e Fausto – difícil agradecê-los o suficiente pela imensa disponibilidade e carinho – decidimos fazer nosso mergulho de reconhecimento ainda naquela mesma tarde. Por volta das 15h partimos em nossa lancha rumo a um ponto do recife mais raso e calmo para que pudéssemos nos ajustar ao lugar, acertando lastro, equipamentos, máquinas e afins.

A primeira impressão é a que fica …

A primeira impressão ao se colocar a cabeça na água foi a de um sonho, uma explosão de vida em meio a um imenso jardim de esponjas e corais de tamanho descomunal, verdadeiras catedrais por onde circulavam centenas de espécimes de peixes recifais, moréias, arraias, tartarugas … Barracudas bem criadas, chegando a medir 1 m de comprimento, patrulhavam calmamente o recife logo abaixo de nossos pés. Isso para não falar das enormes garoupas e meros gigantes epinephelus itajara. Ainda deslumbrados pela diversidade e grandiosidade do lugar voltamos a nossa lancha após cerca de uma hora de mergulho e seguimos em busca de uma inesperada surpresa.

Nós não sabíamos que o nosso piloto havia avistado ao longe um enorme cardume de atuns, o que significava a possível presença de convidados especiais. Mal acreditei quando o guia Noel apontou freneticamente para uma enorme sombra logo a frente do barco, um tubarão baleia!!! Snorkel, nadadeiras e câmera em punho, caímos na água, um momento de puro êxtase vendo aquele gigante passando bem a nossa frente. O encontro foi Rápido, o sol já estava baixando no horizonte e nosso piloto recomendou que voltássemos para a base flutuante. Nada mal para as primeiras 3 horas em Jardines de La Reina (mal sabíamos o que nos aguardava os próximos dias)!

Definimos nossa programação de três mergulhos para o segundo dia com os guias: tubarões cinzentos de recife carcharinus perezei, tubarões sedosos carcharinus falciformis ou “silky sharks”, como são mais comumente conhecidos, e algum recife de corais à tarde.

Partimos do Tortuga navegando pelos braços de mar em meio ao manguezal. A maioria dos pontos fica a menos de 20 minutos de navegação da base. A navegação já é uma aventura em si: voamos sempre em alta velocidade, por canais de águas rasas, cheios de curvas acentuadas, um brinquedo de parque de diversões! Nem preciso comentar a perícia do piloto do barco!

De repente a corrida chega ao fim e o barco corta o motor em meio a um azul infinito e cristalino. Estamos em black coral II e olhando para baixo podemos ver o fundo de areia e formações rochosas forradas de corais. Um olhar mais atento para o fundo revela a silhueta de pelo menos três tubarões caribenhos patrulhando o recife, circulando logo abaixo do barco. Confesso que a excitação foi grande ao cair na água com um olho para baixo e outro para cima para pegar minha câmera. Ao descer percebi que não eram apenas três e sim mais de dez tubarões nas redondezas, indo e vindo calmamente através das formações.

Para manter os tubarões por perto os guias usam um recurso interessante e polêmico: escondem um peixe congelado em um buraco ou dentro de um coral. A vantagem desse método é que assim atraem os tubarões sem que o comportamento dos animais se altere para aquele frenesi típico das sessões de alimentação praticadas em outras regiões do Caribe. Para reduzir a polêmica vale destacar que mesmo esta prática menos agressiva foi adotada apenas em poucos dos nossos pontos de mergulho e mesmo sem as “iscas” encontramos tubarões em praticamente 90% das imersões realizadas. Na verdade, os tubarões são tão freqüentes que é difícil realizar uma foto de garoupa ou de tartaruga ou até mesmo de uma paisagem sem a interferência de nossos amigos dentuços.

Quanto às sensações provocadas por mergulhar com mais de 20 tubarões, alguns com quase 3 metros de comprimento … a emoção toma conta de nossos corpos, a atenção é total, a adrenalina sobe muito quando percebemos que estamos cercados! Os tubarões tem esse comportamento investigativo, nos rodeiam e passam tão perto que chegam a esbarrar em nosso corpo ou na câmera. Cheguei a afastar delicadamente vários deles ao ver que estavam muito interessados nos meus flashs! Permanecemos na área cerca de 25 minutos e depois seguimos por várias formações e cânions, quase sempre seguidos de perto pelos tubarões, sempre indo e vindo, ainda curiosos com nossa presença.

Antes do intervalo de superfície, uma dica importante para os mergulhos: não deixe pés e mãos descobertos, pois os tubarões podem confundi-los com pequenos peixes prateados. Leve e use meia de neoprene e luvas (ou botas para quem usa nadadeiras abertas). O momento de maior atenção é o retorno ao barco: sempre com cerca de vinte tubarões passando bem próximos, logo abaixo de você, é bom subir rápido, se possível equipado – deixe para tirar as nadadeiras a bordo.

Durante o intervalo de superfície fomos a uma ilhota próxima para um descanso em areias brancas e finas. A ilhota é habitada apenas por uma pequena espécie de roedor parecido com a capivara, alguns lagartos que se aproximam curiosos e a outra atração do lugar: crocodilos de água salgada, que podem ser observados tomando sol em praias mais distantes dentro das formações do mangue. Este cenário, digno de um filme de náufragos, é apenas uma das centenas de ilhotas que formam a linha de recifes da região: isolada, selvagem e intocada.

Um desses crocodilos, carinhosamente apelidado de Franco “the croc”, habita uma pequena caverna bem próxima ao Tortuga. O “pequeno e delicado” animal tem mais de 3 m de comprimento, adora frango e foi adotado pelo staff como mascote oficial. Noel, nosso divemaster, já efetuou diversos mergulhos no mangue na companhia do Franco. Confesso que fiquei bem pilhado para mergulhar com o crocodilo, mas a única vez que o avistamos foi numa noite, quando ele se aproximou do Tortuga e ficou rondando por mais de 1 hora, até ganhar uma carcaça de frango de aperitivo de nosso cozinheiro. Realmente impressionante.

Após o intervalo seguimos para Farallon, destino do segundo mergulho do dia, a área onde são efetuados os mergulhos com os silky sharks. A maioria dos pontos onde os tubarões são mais freqüentes está localizada na entrada das passagens que ligam os dois lados da zona de mangues. Os tubarões usam esses corredores que interligam o mar aberto com a face mais abrigada, voltada para a ilha de Cuba.

Chegando ao ponto, motor desligado. Novamente a superfície é um espelho quase perfeito, rompido apenas uma ou outra vez por uma nadadeira dorsal. Novamente diversos tubarões rodeando o barco. Diferente dos cinzentos, os tubarões silky que habitam este ponto preferem águas mais rasas e ficam rodeando o barco a meia água, bem curiosos, se aproximando bastante dos mergulhadores. Fazemos o mergulho seguindo por diversas formações com pequenas cavernas e grutas chegando a 35 m de profundidade. A paisagem e a quantidade de vida são impressionantes, garoupas tigre, meros, grandes barracudas e toda a sorte de peixes coloridos, alem de cardumes de diversas espécies.

O retorno ao barco é feito com alguma antecedência, pois a grande atração é a parada de segurança que realizamos rodeados por dezenas de tubarões silky. São um pouco menores que os cinzentos, mas podem chegar a 2 m com facilidade. Seu comportamento é menos agressivo e se movimentam de forma mais lenta e investigativa. É uma sensação incrível estar rodeado por essa quantidade de tubarões! Estava fotografando alguns deles próximos ao barco quando percebi um pequeno silky passando muito próximo do nosso guia. Numa fração de segundos, Noel pegou a cauda do tubarão e o virou em um movimento preciso que provocou um fenômeno chamado de imobilidade tônica, uma paralisia temporária do tubarão, algo do tipo “fingir de morto”. Nesse momento me aproximei e aproveitei para fazer um close-up da situação chegando quase a abraçar o tubarão que estava nas mãos de Noel. Emocionante! Após alguns segundos Noel liberou nosso amigo que seguiu nadando calmamente como se nada tivesse acontecido. Foi uma atitude um tanto polemica visto que houve manipulação intencional, mas aparentemente não causa nenhum stress ao animal.

De volta ao Tortuga, após uma ducha, com as baterias recarregadas e o cartão de memória descarregado, nossa cozinheira chama para o almoço servido no salão de refeições do barco. É um almoço requintado com diversas opções de peixe, lagosta, batatas e frutas de sobremesa, um verdadeiro banquete! Por volta das 15h saímos para o terceiro mergulho, completando nossa rotina que seria repetida ao longo dos próximos cinco dias a bordo do Tortuga. Quando retornamos do último mergulho ao fim da tarde, somos recepcionados com mojitos e pizza caseira feita na hora, apenas um lanchinho para saborear o pôr do sol e enganar a fome até a hora da janta, por sinal outro banquete, regado a bons vinhos chilenos que acompanham os três tipos de peixes e dois tipos de lagostas servidas com uma sofisticação encontrada apenas nos melhores e mais caros restaurantes.

São inúmeros os atrativos de Jardines. Um mergulho que nos impressionou muito por sua beleza foi Octopus Cave, um ponto onde podemos encontrar tubarões cinzentos de recife e uma grande caverna, que está sendo mapeada e cabeada pelo Noel. A grande entrada da caverna fica repleta de cardumes de vários tipos de peixes. Os tubarões também são freqüentes, é claro, patrulhando a entrada e muitas vezes as áreas mais profundas da caverna. Como não estávamos preparados para incursões mais profundas, nos contentamos em apreciar as formações desde a grande entrada até o estreitamento que leva a outros sistemas, que segundo Noel devem desembocar numa ilha próxima.

Five Seas também merece destaque pela incrível formação de cânions, pequenas grutas, passagens e um pequeno naufrágio desmantelado, onde ainda é possível observar entre os destroços, relógios e medidores, objetos que se estivessem em outro local a muito já teriam sido retirados do fundo. O grande barato do mergulho entre essas formações é ser constantemente acompanhado por tubarões cinzentos, indo e vindo como numa grande rodovia de duas mãos. Tarpões, peixes muito apreciados por pescadores esportivos e escassos em outras regiões do Caribe, são muito comuns aqui, passeando em grandes cardumes a meia água ou pelas passagens submarinas.

Para quem gosta de fotografia macro, La Cana é um ponto imperdível, com minúsculos camarões, nudibrânquios, crustáceos, pequenos peixes coloridos, moréias, corais e gorgônias das mais variadas cores e tamanhos.

Enfim, são tantos atrativos que é muito complicado decidir o que fotografar. Confesso também que é meio difícil olhar para o resto da paisagem com dezenas de tubarões de diferentes espécies rondando você durante todo o mergulho. Além dos silky, cinzentos, tubarões lixa e tubarão baleia, podemos encontrar o tubarão martelo gigante sphyrna mokarran, espécie rara, chegando a medir mais de 4 m e que pode ser visto com certa facilidade nas zonas próximas aos paredões, nadando no azul em busca de alimento, tubarões tigre também podem ser vistos em alguns pontos mais distantes, alcançados apenas pelos ocupantes das quatro embarcações para live aboard operadas pela Avalon na região (eu, particularmente, prefiro o La Tortuga pelo conforto e versatilidade da operação uma vez que boa parte dos pontos feitos pelos live aboards também podem ser alcançados de lancha rápida a partira do Tortuga sem muita dificuldade).

Alguns anos atrás assisti na National Geografic um documentário de David Doubilet sobre os Jardines de La Reina. Desde então sonho em conhecer esse lugar, entre cético e impressionado com as descrições e fotos que havia visto. Agora, ao retornar de viagem, ciente de que é impossível imaginar com clareza o quão preservada e especial é essa região, fico aqui pensando como será daqui a alguns anos quando finalmente Cuba se abrir para o mundo. Será que o mesmo empenho em preservar e manter essa área intocada não sucumbirá a interesses econômicos mais fortes? Torço para que não. Rezo para que o bom senso e a razão iluminem as mentes dos próximos governantes e gestores da região.

Enquanto isso … coloque esse destino na sua lista de desejos!

Quanto a mim … ainda não consigo acreditar que no Caribe exista um lugar como esse, só me resta agradecer a Luisa Sacerdote da Avalon e ao Marcelo Rossi da Squallo a oportunidade de poder registrar e compartilhar com os leitores as maravilhas desse lugar.

Informações Gerais:

La Tortuga é um hotel flutuante com 7 cabines/apartamentos e capacidade para 22 mergulhadores ou pescadores. As cabines contam com ar condicionado individual, banheiros privativos e muito conforto. Os geradores e a praça de recarga e manutenção de equipamentos ficam distantes do hotel e o barulho não incomoda os hóspedes. As 4 embarcações de live aboard foram recentemente reformadas e tem capacidade média para 12 mergulhadores cada.

A estrutura de mergulho dispõe de cilindros de 12 e 15 litros e equipamento para locação.

Em Havana existem excelentes hotéis no centro velho (totalmente restaurado), próximos da maioria dos principais pontos turísticos. Uma opção 5 estrelas é o Hotel Melia próximo ao Malecón.

Como Chegar:

Parte aérea com a Copa Airlines (via Panamá) até Havana; traslado em ônibus (7horas) até Jucaro; embarque em lancha rápida (4 horas) até o La Tortuga.

Dicas:

  • Melhor época: Novembro á Agosto
  • Moeda local: Peso Cubano
  • Temperatura da água: entre 26 e 30 graus
  • Maioria dos lugares não aceita cartão de crédito, leve euros ou dólares
  • Compras: Charutos e Rum
  • Não deixe de visitar o centro velho e a residência de Ernest Hemingway

Se desejar conhecer um pouco mais de Cuba alugue um carro em Cierro da Ávila, próximo ao local de desembarque, e vá dirigindo até havana, 5 dias são suficientes para conhecer algumas cidades, reserve 2 dias no mínimo para Havana, no caminho Cienfuegos e Playa Giron oferecem bons mergulhos também.

Em geral as estradas são bem sinalizadas e bem asfaltadas, cuidado especial com animais, bicicletas e motonetas que dividem o espaço com os poucos carros que circulam pelas rodovias.

Quem Leva:

CUBA: Avalon – Dive Center: www.divingincuba.comwww.jardinesdelareina.com.br/

Ou seu Representante oficial no Brasil: Squallo – Dive Expeditions: www.squallo.com.br

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